Competitividade do mercado de carbono moderniza conservação
Em Caracaraí, Roraima, um projeto de conservação de 14 mil hectares une tecnologia e ações socioambientais para garantir competitividade no mercado de carbono, com investimento de R$ 20 milhões.
A competitividade do mercado de carbono está reformulando a conservação florestal no Brasil. Em Caracaraí, Roraima, um projeto de 14 mil hectares uniu inovação tecnológica e ações socioambientais para manter a vegetação nativa sob pressão do desmatamento legal, principal fonte de emissão de gases do efeito estufa no país. A iniciativa é da empresa paulista de soluções para descarbonização ZEG (Zero Emission Goal).
A área pertencia a um produtor rural de soja de Goiás que havia pedido autorização ao Estado para desmate legal. O Código Florestal (Lei 12.651/2012) permite que Roraima, onde mais de 65% do território é de unidades de conservação, reduza a reserva legal para 50% nas propriedades privadas, com zoneamento ecológico-econômico concluído em 2022. No bioma amazônico, a reserva seria de 80%, mas o produtor passou a ter direito de desmatar metade da área para plantar soja.
"Foi daí que a gente ficou sabendo que ele estava com esse pedido de supressão da área. Então, a gente contatou o produtor e no começo ele ficou bastante com dúvidas se esse era o caminho a seguir, mas ele acreditou no nosso projeto e decidiu embarcar", conta o diretor-presidente da ZEG, Carlos Jacob.
A proposta incluía monitoramento e prevenção de incêndio, programa socioambiental com comunidades coletoras de castanha-do-Pará e certificação dos estoques de carbono. Foi feita a remontagem da cadeia dominial e a cessão do direito real de superfície por 40 anos, duração do contrato de comercialização. Segundo Jacob, a medida dá credibilidade a investidores após o colapso do mercado de conservação entre 2021 e 2023, causado por números superestimados e áreas sobrepostas a terras públicas.
Uma torre de 60 metros, com câmera e inteligência artificial, identifica focos de incêndio em três minutos. "Chega para a gente um relatório, que mostra exatamente onde está acontecendo o foco de incêndio", explica Cineone Silva, coordenador de operações de campo. A equipe local de 20 pessoas foi treinada, e duas áreas de assentamento vizinhas também atualizaram suas brigadas.
Cerca de 36 famílias extrativistas mantiveram a coleta da castanha, com apoio para criar a Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar). Na última safra, a venda coletiva melhorou os preços. "Trabalhando junto, a gente já pode pensar em fazer uma venda melhor", diz a secretária da Agrocar, Eliane de Sena.
Foram investidos R$ 20 milhões, com certificação da Verra e auditoria da Earthwood. O estoque ainda não foi comercializado, mas a iniciativa já recebeu classificação AA da agência BeZero, "a primeira nota duplo A de um projeto de carbono na Amazônia", conclui Jacob.