Sustentabilidade

Crédito rural financiou R$ 92,4 bi em áreas com alertas ambientais

ResumoO Monitor do Crédito Rural do MapBiomas identificou que R$ 92,4 bilhões em crédito rural público, entre 2019 e 2025, financiaram imóveis com alertas de desmatamento. O valor representa 15% do total concedido, distribuído em 831 mil operações. Cinco bancos concentram 60% dos recursos destinados a essas áreas.

Cerca de 15% do crédito rural público concedido entre 2019 e 2025, R$ 92,4 bilhões, foi para imóveis com alertas de desmatamento. O Monitor do Crédito Rural, do MapBiomas, mostra que 831 mil operações foram identificadas. Cinco bancos concentram 60% dos recursos.

Anderson Fagundes
Anderson Fagundes Especialista em máquinas agrícolas · 19 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Crédito rural financiou R$ 92,4 bi em áreas com alertas ambientais

Quem mexe com crédito rural sabe: a papelada é só o começo. O que pega mesmo é saber se a área financiada está limpa na questão ambiental. E o novo Monitor do Crédito Rural, do MapBiomas, jogou uma pá de cal nessa história: entre 2019 e 2025, R$ 92,4 bilhões do crédito rural público foram parar em imóveis com alertas de desmatamento ou degradação da vegetação nativa. Foram 831 mil operações, cerca de 15% do total de R$ 613,18 bilhões financiados no período.

Entre 2019 e 2025, o crédito rural público financiou R$ 92,4 bilhões em imóveis rurais com alertas de desmatamento ou degradação da vegetação nativa. Foram 831 mil operações, que representam 15% do total concedido no período. O levantamento é do Monitor do Crédito Rural, do MapBiomas.

Quem operou e quanto financiou

Mais de 400 instituições financeiras operam crédito rural no país, mas cinco bancos concentram cerca de 60% do volume total: Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, Sicredi e Banrisul. O Banco do Nordeste realizou o maior número de operações, 56% do total, enquanto o Banco do Brasil lidera em valores, com R$ 306 bilhões financiados.

Quando a análise foca nas operações sobrepostas a camadas socioambientais (alertas de desmatamento, embargos, terras indígenas, unidades de conservação, quilombos e florestas públicas), o Banco do Nordeste respondeu por 63% dos contratos. Já em volume financeiro, o Banco do Brasil concentrou 33% dos recursos.

O que foi financiado e onde

Mais de 68% das operações de crédito rural público desde 2019 tiveram como finalidade investimentos. Cerca de 58% estavam ligadas à pecuária, e aproximadamente 23% foram destinadas à aquisição de animais. Os bovinos aparecem como o principal produto financiado, presentes em cerca de 27% das operações.

O Piauí foi o estado com maior número de contratos com sobreposição socioambiental: 336 mil entre 2019 e 2025. Em volume de recursos, os maiores valores foram registrados no Tocantins (R$ 13,9 bilhões), seguido por Mato Grosso (R$ 13,3 bilhões) e Rondônia (R$ 13 bilhões).

Alerta de satélite não é irregularidade

Um alerta de desmatamento não significa automaticamente que o crédito foi concedido de forma irregular. O MapBiomas Alerta identifica perda de vegetação nativa, mas não julga a legalidade da supressão. O Código Florestal Brasileiro permite o desmatamento sob certas condições, desde que o produtor obtenha uma Autorização de Supressão de Vegetação (ASV).

A concessão de crédito rural é proibida sobre áreas formalmente embargadas por órgãos ambientais, como o Ibama. Um imóvel pode ter alerta de satélite, mas sem auto de infração ou embargo oficial, não há impedimento para conseguir o crédito.

Novas regras do CMN

Em dezembro de 2024, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou novas regras que obrigam os bancos a cruzar alertas de satélite (como o sistema Prodes) para bloquear o crédito rural antes mesmo de um embargo formal. Porém, a validade da medida foi adiada para janeiro de 2027.

Como o monitor funciona

O Monitor do Crédito Rural cruza informações do Sicor com bases geoespaciais do MapBiomas, incluindo alertas de desmatamento, embargos ambientais, terras indígenas, unidades de conservação, territórios quilombolas e florestas públicas. A plataforma é atualizada mensalmente com dados do Banco Central. A nova versão ampliou o alcance ao incorporar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) informado nas operações registradas no Sicor.

O pesquisador do MapBiomas, Paulo Teixeira, explica que a quantidade de operações analisadas mais que duplicou na nova versão. "Estão sendo monitoradas todas as operações do Sicor que têm sua localização disponível publicamente, seja pela gleba ou pelo CAR. Isso permite que tenhamos uma melhor visão de para onde está sendo fornecido esse crédito", disse.

O que os bancos dizem

Em nota, o Banco do Brasil afirmou que sua política de crédito "veda a concessão de financiamentos que englobem áreas protegidas, a exemplo das terras indígenas, quilombolas, florestas públicas e ainda em áreas com desmatamento ilegal". A instituição utiliza 33 bases públicas para verificar restrições legais e a ferramenta de Diagnóstico Geo Socioambiental para identificar sobreposição com bases geográficas impeditivas. Em 2025, o banco afirma que evitou que R$ 31,6 bilhões fossem direcionados a áreas não alinhadas com normas socioambientais.

O Banco do Nordeste (BNB) afirmou que todas as suas operações são concedidas em estrita conformidade com a legislação, incluindo verificação de regularidade socioambiental. O BNB usa ferramentas de avaliação socioambiental complementadas por sensoriamento remoto e consultas a bases oficiais de controle. O banco destaca que operações eventualmente identificadas em áreas legalmente protegidas não implicam, por si só, irregularidades, em alguns casos, podem estar vinculadas a beneficiários legalmente autorizados, como povos indígenas e comunidades quilombolas.

Perguntas Frequentes

Um alerta de desmatamento impede o crédito rural?

Não. Um alerta de satélite indica perda de vegetação, mas não julga legalidade. A proibição vale para áreas formalmente embargadas por órgãos ambientais como o Ibama.

Quais bancos mais financiaram áreas com alertas?

O Banco do Nordeste lidera em número de contratos (63% das operações com sobreposição socioambiental). O Banco do Brasil lidera em volume financeiro, com 33% dos recursos.

O que o CMN mudou em 2024?

O CMN aprovou regras que obrigam bancos a cruzar alertas de satélite para bloquear crédito antes de embargo formal. A medida vale a partir de janeiro de 2027.

Como o MapBiomas faz o monitoramento?

O Monitor do Crédito Rural cruza dados do Sicor com bases geoespaciais do MapBiomas, incluindo alertas de desmatamento, embargos, terras indígenas e unidades de conservação. A plataforma é atualizada mensalmente.

A pecuária é o principal destino do crédito rural?

Sim. Cerca de 58% das operações de crédito rural público desde 2019 estavam ligadas à pecuária. Os bovinos aparecem como o principal produto financiado, em cerca de 27% das operações.

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