Sustentabilidade

Devastação na Amazônia pode quebrar máquina de chuva

ResumoA devastação na Amazônia ameaça os rios voadores, sistema que transporta umidade do oceano Atlântico pela floresta e gera chuva em boa parte da América do Sul. Desmatamento, mineração e narcotráfico reduzem a evapotranspiração das árvores, comprometendo o regime de chuvas, a agricultura e o abastecimento hídrico de regiões distantes da floresta.

A umidade que nasce no oceano, passa pela floresta e vira chuva em boa parte da América do Sul está sob pressão. Pesquisadoras ligadas ao TEDxAmazonia explicam como o desmatamento, a mineração e o narcotráfico ameaçam a maior máquina de chuva do planeta.

Tarcísio Maia
Tarcísio Maia Analista de mercado agrícola · 14 de setembro de 2026 · 2 min de leitura
Devastação na Amazônia pode quebrar máquina de chuva

A umidade que chega do oceano cai como chuva sobre a floresta. As árvores absorvem essa água do solo e a devolvem à atmosfera em forma de vapor, que o vento espalha por todo o continente. Esse circuito, explica a pesquisadora Julia Valentim Tavares, é a principal infraestrutura hídrica da América do Sul e a maior máquina de chuva do planeta. Uma árvore adulta na Amazônia pode liberar de 200 a 300 litros de água por dia.

O sistema depende de escala. "Imaginem 400 bilhões delas trabalhando juntas todos os dias. Se pudéssemos tornar essa umidade possível, veríamos rios gigantes voando no céu. É o que nós cientistas chamamos de rios voadores", afirma Julia.

Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, entidade que reúne mais de 350 cientistas, descreve a floresta como a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes e carbono. "Em outras palavras, a Amazônia sustenta a vida, não só na região amazônica, mas no planeta como um todo."

As duas pesquisadoras participaram da última edição do TEDxAmazonia, no fim de agosto, no Equador, e fizeram um alerta: a devastação já está afetando a máquina de chuva, e uma quebra seria catastrófica. Segundo Marielos, mineração, narcotráfico, desmatamento e queimadas atingem diretamente a conectividade amazônica, fator central para a conservação do bioma.

Os efeitos no clima já são mensuráveis. Há evidências de que o desmatamento na Amazônia brasileira resulta em menos chuva em regiões do Brasil e da Bolívia, com temperatura em alta e secas mais intensas e prolongadas nas áreas desmatadas. Julia investiga por quanto tempo as árvores do arco do desmatamento resistem antes que suas cordas internas se rompam. "A atmosfera puxa para cima, o solo puxa para baixo, até a hora que essa corda se rompe. Se isso acontecer muitas vezes, em várias partes da árvore, essa árvore começa a literalmente morrer de sede."

Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca de sua história, ligada ao El Niño. Marielos destaca que 88% da bacia amazônica sentiu os efeitos, com desabastecimento em Bogotá e cortes de energia em Quito. A seca também deixou a floresta mais vulnerável ao fogo, e a fumaça alcançou o Sudeste. "O que acontece na floresta não permanece na floresta", resume Julia.

A previsão de um super El Niño este ano preocupa. Sem água, a floresta pode deixar de funcionar como sumidouro de carbono e passar a emitir, ampliando o aquecimento. A saída, diz Marielos, passa por reduzir drasticamente as emissões, substituir combustíveis fósseis e investir em conectividade: restaurar áreas degradadas e reconectar o que foi desmatado. "A Amazônia já está se aproximando do ponto de não retorno", alerta.

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