Sustentabilidade

Ventania expõe falhas na resposta a extremos climáticos em RJ, SP e RS

ResumoA resposta brasileira a extremos climáticos, como a ventania de 100 km/h em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, revela falta de planejamento urbano de longo prazo. O evento, com mortes e danos, expõe a reatividade das cidades frente a fenômenos intensificados pelo El Niño no segundo semestre. Ações estruturais preventivas permanecem ausentes.

Ventos acima de 100 km/h mataram e causaram estragos em SP, RJ e RS. Para especialistas, o caso expõe que as cidades brasileiras ainda reagem aos extremos climáticos sem planejamento de longo prazo. El Niño agrava o cenário no segundo semestre.

Tarcísio Maia
Tarcísio Maia Analista de mercado agrícola · 31 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Ventania expõe falhas na resposta a extremos climáticos em RJ, SP e RS

Ventania em RJ, SP e RS expõe falhas na resposta a extremos climáticos

Nos últimos dias, ventos acima de 100 quilômetros por hora (km/h) provocaram mortes e transtornos generalizados em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Para especialistas em clima, o fenômeno expôs, mais uma vez, que as cidades brasileiras não estão preparadas para lidar com eventos climáticos extremos.

Por que a ventania virou alerta nacional

A preocupação cresce com a previsão de que, ao longo do segundo semestre deste ano, o país sofra impactos de intensidade moderada a muito forte por causa do El Niño. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão inclui chuvas excessivas, secas severas e ondas de calor, a depender da região.

Gestão reativa: o diagnóstico dos especialistas

Para o professor de Ciências Ambientais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Pedro Torres, a gestão das cidades é apenas reativa diante dos fenômenos extremos e ignora riscos futuros. O pesquisador também integra o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), principal órgão científico global da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Se entendemos que estamos vivendo uma emergência climática, as ações para a adaptação precisam também entrar nessa seara da emergência. Eventos extremos vão acontecer cada vez mais e com mais intensidade. Não se trata apenas de ter um melhor alerta. O desafio agora é construir cidades mais resilientes."

O porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, diz que a gestão de riscos precisa considerar três etapas complementares para ser eficiente. Não basta a previsão meteorológica e a emissão de alertas, se as cidades não tiverem estruturas adaptadas para lidar com o problema quando ele acontece.

"A maior atenção tem que ser dada em como a cidade está sendo pensada para proteger as pessoas. Eventos extremos serão o nosso normal a partir de agora", diz Rodrigo.

O caso do Rio: alertas em cima da hora

No Rio de Janeiro, os alertas sobre ventos fortes foram emitidos pouco tempo antes do início do fenômeno na quarta-feira (29). Isso levantou questionamentos sobre a eficácia do monitoramento meteorológico e da comunicação à população.

Segundo o Centro de Operações da Prefeitura do Rio (COR-Rio), o Sistema Alerta Rio emitiu um aviso meteorológico às 14h15 com informações sobre a possibilidade de rajadas a partir da tarde. "A partir do momento em que foram identificadas rajadas intensas de vento, os avisos foram emitidos via SMS e WhatsApp para todos os moradores cadastrados no Sistema de Avisos", diz a nota do COR-Rio.

Já a Secretaria de Estado de Defesa Civil (Sedec-RJ) informou que o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden-RJ) emitiu alerta às 15h30 sobre rajadas moderadas ou fortes nas regiões Costa Verde, Sul Fluminense, Baixada Fluminense, Metropolitana, Baixadas Litorâneas e Norte Fluminense.

"Quarenta e quatro prefeituras têm autonomia para emitir as mensagens via SMS diretamente à população. Os demais [48] são cobertos pelos serviços da Sedec-RJ", diz a nota.

A pergunta certa não é sobre a previsão

Segundo Rodrigo Jesus, a ventania no Rio pode ser considerada um fenômeno de evolução rápida, que traz margem de incerteza para a meteorologia. Porém, a pergunta central não deve ser se a previsão acertou a velocidade exata do vento, mas sim se a cidade conseguiu responder rapidamente e proteger a população.

"A imprevisibilidade meteorológica não deve ser justificativa para que a gente não tenha uma cidade preparada. O limite não é da tecnologia, o limite é justamente da política pública e dos gestores públicos", analisa.

Além das mortes: quedas de árvores, apagões e transporte parado

Os transtornos da ventania envolveram quedas de árvores, apagões de energia para milhares de pessoas e paralisação no transporte público. Para o especialista do Greenpeace, esses problemas poderiam ser evitados com planejamento adequado.

Entre as medidas apontadas estão o manejo preventivo da arborização urbana, a modernização da rede elétrica, a atualização dos mapas de risco, a revisão dos planos de adaptação climática e a incorporação do risco climático em projetos de infraestrutura.

"Todos os projetos aprovados pelas secretarias de obras deveriam passar por uma avaliação sobre como aquela intervenção contribui para proteger a população diante das mudanças climáticas", defende Rodrigo. Ele também entende que concessionárias privadas responsáveis por serviços públicos, como energia elétrica, precisam apresentar planos de gestão de risco.

Abrigos climáticos e educação como saída

Para o professor Pedro Torres, uma das medidas que podem fortalecer a adaptação das cidades é a criação de abrigos climáticos. "Seriam espaços para proteger as pessoas durante um evento extremo. Eles também podem funcionar como locais de cultura, debate e informação", analisa.

Além da adaptação física, os especialistas defendem investimentos permanentes em educação ambiental. Para Torres, o Brasil ainda apresenta déficit nesse tema. "Os próprios alertas muitas vezes não são levados a sério. Isso revela uma falta de cultura do risco que precisa ser trabalhada desde cedo", diz.

Rodrigo Jesus sugere seguir o exemplo de países como Japão e Filipinas, que incorporaram protocolos de emergência ao cotidiano da população. "A gente aprende desde cedo como agir em um incêndio ou em um acidente de trânsito. Mas poucas pessoas recebem orientação sobre como agir diante de uma ventania extrema, uma onda de calor ou uma inundação", conclui.

Perguntas Frequentes

O que causou a ventania em RJ, SP e RS?

A fonte não especifica uma causa única. Especialistas apontam que o fenômeno expõe a falta de preparo das cidades para eventos climáticos extremos, agravada pela previsão de El Niño no segundo semestre.

As cidades estavam preparadas para a ventania?

Segundo especialistas, não. A gestão é reativa e ignora riscos futuros, o que resultou em mortes, quedas de árvores, apagões e paralisação do transporte público.

O que pode ser feito para melhorar a resposta a extremos climáticos?

Medidas como manejo preventivo da arborização, modernização da rede elétrica, atualização de mapas de risco, criação de abrigos climáticos e educação ambiental permanente são apontadas pelos especialistas.

Como funciona o alerta de ventania no Rio?

O Sistema Alerta Rio emite avisos via SMS e WhatsApp para moradores cadastrados. A Sedec-RJ coordena o envio para 48 municípios, enquanto 44 prefeituras têm autonomia própria.

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